sábado, 16 de janeiro de 2010

Filhos do Brasil


Renato olha com tensão para o parceiro que estava posicionado a alguns metros atrás de uma coluna que era usada como proteção. Há muito tempo que a função de policial no Rio de Janeiro cobrava dele e de deus companheiros nervos e treinamentos de soldados de guerra. Porém eles não tinham a capacitação adequada. Eram apenas seres humanos, que adentraram numa profissão a muito custo, com a intenção de ajudar o país a combater a violência e tornar a cidade mais segura para sua família e para desconhecidos ou simplesmente para ter um sustento.

Mas o que ele fazia todo dia não era isso. Ele havia sido na verdade convocado para uma guerra, que se sustentava numa linha tênue entre salvar a própria vida dia após dia ou matar crianças e jovens armados até os dentes, às vezes com equipamentos mais avançados que os seus, e que não pensariam duas vezes antes de atirar. Com um sorriso assustador nos lábios que mostrava para ele que aquilo tudo para aquelas crianças não era mais que uma brincadeira de tirar a vida como se fosse um jogo de vídeo game.

O dinheiro não deveria ser a única motivação pelo qual alguém realiza alguma tarefa. Mas sem hipocrisia Renato sabia que era sim necessário e que o salário pago a eles era uma piada. Um salário que só possibilitava que ele morasse em uma casa alugada, vizinho de tantos traficantes que ele perseguia durante o dia. Mas ele estava consciente que podia se considerar com sorte. Ao menos havia conseguido uma moradia fora da favela, tinha amigos que, para ir para a casa, precisavam esconder a farda e o distintivo. Se não quando chegassem a noite corriam o risco de ver seu lar destruído e sua família morta.

Com um leve aceno de cabeça o amigo dá o sinal de que podem avançar mais alguns metros. Daquele lado estavam apenas os dois, por que a saídas de fuga no norte era só aquela. Mas a missão tinha outros sete homens que cercavam a casa, que iriam invadir, cobrindo outras possíveis saídas. Não era a primeira nem a última vez que Renato invadia uma casa depois de denúncias de tráfico de drogas. Mas a cada dia o cerco piorava. A cada dia a possibilidade de voltar para casa são e salvo ficava mais abalada.

Quando viu a notícia do helicóptero da polícia que havia sido abatido por traficantes, ele estava em casa. Era seu dia de folga e ao acordar, depois de uma noite escura e sem sonhos, ele viu a notícia no jornal da manhã. Calafrios percorreram seu corpo. Era a rota coberta por sua equipe. Poderia ter sido ele. Era uma missão não normal, mas comum. Afinal qual a normalidade em entrar em regiões, dentro de cidades, totalmente entregues ao próprio destino e à marginalidade e ao crime?

No dia seguinte, foi ao velório dos policiais que morreram naquela missão com uma raiva incontida dentro de si. Só não sabia de quem. A quem poderia culpar? Os traficantes, o governo, a sociedade, os viciados, a si mesmo? No mesmo dia ele soube que tiveram outros enterros. Alguns de bandidos mortos no tiroteio, outros de jovens que iam para casa àquela noite e cruzaram a rua errada na hora errada.

No final todos estavam indo para o mesmo lugar. Todos eram vítimas. E culpados. Ninguém era isento, ele sabia. Era fácil culpar os outros. Mas o que fazer com o seu próprio sentimento de culpa e impotência? Lembrou de uma conversa que escutou alguns dias atrás, quando havia sido assaltado e por pouco não mataram seu filho e a menina do Nordeste que trabalhava em sua casa.

Seu filho de oito anos que brincava com um amigo, quando este lhe perguntou sobre o assalto:

- Mas como assaltaram sua casa Pedro? Seu pai não é policial?

E seu filho respondeu:

- É, mas ele não estava em casa... - e depois de pensar um pouco completou – mas ainda bem que ele não tava em casa. Se não os bandidos teriam matado ele... Eu vi na televisão que os bandidos sempre matam policiais. Quando vi eles falando que estavam roubando, corri e escondi uma foto do papai com a gente que ele tá de farda, pra que eles não fossem atrás dele depois.

Alguns moradores passam assustados entre Renato e seu amigo e são direcionados a seguir por outra rua. Seus olhos não trazem mais surpresa, apenas medo, pavor e também conformação. Já não se revoltam mais, seus pedidos de ajuda já não são dirigidos ao governo e sim a Deus. E a ajuda que pedem não é mais por melhorias na vida, saneamento, escolas, empregos ou a segurança, que de tão rara parece mais uma lenda folclórica do Brasil. O que eles pedem em suas preces é apenas se manter vivos. Pedem pela vida deles e de seus familiares. Uns, mais esperançosos, rezam também pelos policiais, pra que eles consigam restabelecer a paz. Outros já rezam para que algum traficante tome de vez a posse do lugar e acabem as brigas por lideranças de áreas. No final eles só querem viver em paz, não se importam se será dentro da legalidade ou não. Afinal a tentativa de se fazer cumprir a lei por ali, só havia trago mais perigo e mortes.

Com um código dito no rádio que traziam preso ao ombro, Renato e o parceiro entram no quintal da casa que estavam cercando. Na frente escutam que os outros policiais também estavam próximos. O tiroteio começa. A casa já bastante esburacada por balas, sofre ainda mais com a munição de ambos os lados. Do outro lado, o capitão grita para que os bandidos se rendam. Mera formalidade, todos sabiam que eles não iriam se render. O que eles queriam era matar ou morrer. Mas o aviso era necessário para que os próprios policiais testemunhassem na corregedoria daqui a alguns dias que o capitão havia tentado resolver pacificamente.

Num momento de trégua nas balas, o parceiro de Renato percebeu que os bandidos ainda não haviam dado pela presença deles, e faz sinal para que ele o acompanhasse para dentro da casa. Seguindo na frente, abaixado, com cuidado para que algum tiro não chegasse até ele, vai entrando lentamente. Renato segue atrás, já nem escuta o ar entrando em seus pulmões e percebe que tinha parado de respirar. Tomando fôlego, segue com a arma em punho.

De repente um estrondo o joga de encontro a uma parede. E o som da explosão o deixa momentaneamente surdo e cego. Quando a poeira do lugar se assenta mais ele percebe que uma granada havia explodido. Por um instante o silêncio reina. Num salto vai em direção de onde estava seu parceiro. Seu padrinho de casamento. Seu amigo. Seu irmão. Mas não o encontra mais, apenas pedaços de um corpo humano, sem vida e retalhado em sangue.

Cego, alucinado e com um urro de ódio, entra na casa atirando para todos os lados. Com o dedo fundo no gatilho da arma automática. Bam, bam, bam. Nem pensa que outros policiais podem estar ali, nem pensa que pode ser atingido. Nem pensa que aquilo é suicídio.

Dane-se, é só o que vem a sua cabeça. Dane-se tudo. Lutar para quê? Pelo quê? Ele não pode fazer nada, nada, nada. Ele não pode salvar ninguém. Ele não pode mudar o mundo, torná-lo melhor... Não, ele não pode salvar ninguém.

Gritando sempre, continua a atirar, levanta pó das paredes, espalha tudo para todos os lados. Arrebenta com a mobília miserável do lugar. Era uma casa de alguém. Alguém tinha uma vida ali, onde os traficantes escolheram para se reunir. Entrando mais, vê corpos no chão. Cadáveres de bandidos, mas aquilo não o alivia. Não era vingança que ele buscava. Ele só queria uma razão.

Quando sua munição acabou vê que seu capitão gritava com ele. Que ele saísse dali. Que era uma ordem. Que haviam acabado ali, estavam todos mortos.

Estavam todos mortos. Inocentes e culpados, bandidos, policiais, civis. Estavam todos mortos, pensava Renato. E então ele vê. Encolhido no chão, ele vê seu filho.

Corre ao seu encontro e o pega nos braços, mas não era seu filho. Usava sua roupa, provavelmente roubada, mas tinha sua idade, os mesmos cabelos crespos e negros agora ensopados de suor e sangue. O mesmo corpinho pequeno, tão frágil e infantil.

Mas os olhos eram outros. Os olhos do menino não traziam o amor de seu filho quando Renato o abraçava como fazia agora. Esses olhos, também negros, carregavam ódio e morte. Renato não viu sua mãozinha frágil e machucada erguer-se com a arma em direção a sua cabeça. Não ouviu a arma ser engatilhada.

Pou!

E agora o menino jazia morto em seus braços. O capitão da missão daquela manhã olhava para Renato, sem entender o que acontecia ali, mas entendeu o que o menino ia fazer e atirou primeiro.

Renato olhava para a criança sem vida. Parecia tanto com seu filho. E era. Era o filho dele, o filho de cada brasileiro, sem escola, sem família, sem oportunidades, sem escolhas. O filho da desigualdade e da injustiça, um dos filhos do Rio de Janeiro, irmão da corrupção e da comodidade da população. O filho do Brasil.

2 comentários:

Anônimo disse...

Maravilhoso e Trágico! Um retrato contundente da realidade que vivemos hoje. Serviria como base para o roteiro de um filme. (LEMMON)

Honestino Afonso Xavier disse...

boa noite..

Evangenho de João cap.14
6 Disse-lhes Jesus: Eu sou o caminho, a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim.

18 Não vos deixarei órfãos; voltarei para vós.

29 Eu vo-lo disse, agor, antes que aconteça, para que, quando acontecer, vós acrediteis.

Que Jesus Cristo ilumine sempre, seu camiho e sua vida, com a verdade de Deus.

ficou legal o seu blogger
quando der visite o meu
abraços.

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