terça-feira, 27 de outubro de 2009

Duas Vidas


O mundo em que vivo é bem diferente do seu. Passo horas, dias, meses... Anos sentado em uma bela poltrona macia de couro, atrás de uma mesa de madeira real e grandes portas de vidro e aço. Fico no alto de um grande prédio que mais parece um palácio que onde vejo o mundo de uma forma diferente. Na verdade vivo de uma forma bem diferente de você. Mas eu estou aqui... E você?!

Você está em uma bela mesa. Sentado na cabeceira. Você é o centro de tudo. Na outra ponta uma linda mulher. Loira, 1,70m de altura, 58 quilos, com olhos verdes como o mar. As mãos dela sempre lhe impressionaram. Macias e leves. Sempre que passeiam em seu corpo lhe levam ao êxtase. Mas você não as admira apenas na hora do sexo. Agora, por exemplo, ela segura uma colher e a enche de arroz branco, quente e cheiroso. Como um ritual belo ela leva um pouco do belo jantar até o prato de uma linda menina, que agora briga com o irmão mais velho de dezesseis anos.

A família perfeita.

Nossos mundos.

As vinte e três e trinta é quase como um ritual. Entro no elevador, aperto no botão do térreo e logo chego a um lugar vazio e silencioso. Olho para a vaga 1A e vejo o sonho de milhares de pessoas pelo mundo. A máquina. O motor mais potente capaz de movimentar um objeto no chão e ficar ainda tocando no asfalto. Objeto que não é uma aeronave, mas tem um valor superior a muitas. Algo que diversas pessoas seriam capazes de matar por ela. Bancos de couro, acabamentos cromados com madeira, provavelmente madeira de traficada da Amazônia, e também tecnologias inimagináveis.

Tudo para um homem só.

Você veria isso. Eu não. Eu vejo nada. Eu vejo tudo como simples capricho, um dinheiro fútil que gasto sem me importar. Mas agora, as vinte e três horas e trinta e nove minutos, é tudo o que tenho.

Uma cama grande, espaçosa, de madeira, boa o bastante para não desmontar enquanto você soa mesmo o ar estando ligado no máximo. As minhas mãos passam no volante. As suas passam em um corpo perfeito. Ela se enrosca em suas pernas e geme e sussurra em seus ouvidos. Isso é o que você escuta. Eu, o barulho de vários cavalos e engrenagens se movimentando ferozmente.

Você está feliz, eu estou só.

Maicol é um poderoso empresário do ramo jornalístico. Aos 35 anos é um magnata bem sucedido, herdeiro de uma tradicional família. As zero hora, Maicol pisa fundo no seu Lamborguine. Corta os faróis, deixa outros frágeis carros para trás, esses parecendo pintura abstratas em uma tela negra. Divorciado há três anos entrou em uma vida diferente. Uma vida onde tudo é possível e vale à pena. A não ser... Sentir qualquer tipo de emoção.

***

Prédio Nova Alvorada. Um prédio imenso. Trinta andares, acabamento perfeito, cores neutras e uma garagem de fácil acesso. Acesso esse que agora o imponente Lamborguine, prata com vidros fumês, entra.

Prédio residencial? Não. Isso é o que todos pensam. No interior um luxuoso espaço de espera. Uma sala enorme, o piso da entrada forma desenhos de vários labirintos. Grandes sofás negros, plantas espalhadas pelos cantos, luzes por toda parte. Cartões e mais cartões, que são chaves de acesso a todos os apartamentos, ficam dependurados na parte oposta a um grande quadro 5x5m, que retrata uma pintura de dois corpos sobrepostos um ao outro. Sinuoso não é?!

***

Do outro lado da cidade, em um pequeno apartamento, com a pia abarrotada de panelas, copos, talheres e louças, uma geladeira é aberta. Uma vasilha cheia de sorvete é pega em meio aos tantos iogurtes de morango e uma torta de abacaxi. Uma boca seca é molhada por uma colher cheia de sorvete. A mesma boca é tomada por um beijo firme, lento e zeloso. Sorrisos enchem o lugar. Sorrisos em baixo tom.

Tiago e Sandra, 30 e 26 anos, saem para a sala. Ela nas costas dele, prontos para passarem mais uma madrugada de sexta acordados. Apenas assistindo um bom filme na TV, falando do futuro dos filhos, mandando e-mails para os pais e para velhos amigos. Duas pessoas felizes, prontas para curtirem um fim-de-semana doméstico e afetuoso.

***

- Boa noite, querido. Trabalhou muito hoje?

Uma bela mulher usando apenas lingerie mínima e vermelha estava encostada em uma imponente porta de carvalho maciço. Uma porta grandiosa e de brilho único como os lábios daquela dama, que logo pega a pasta de Maicol.

- Que bom que você chegou amor...

Incrível um homem chegar quase de madrugada em casa e mesmo assim uma linda ruiva de corpo firme, rosto angelical e cabelos sedosos, o esperar na porta tão sexy quanto uma gripe.

Ela é uma prostituta de luxo, paga para fingir para caras como eu, que é uma esposa. Ela é igual a muitas que ficam nesse prédio, em muitas noites. Lindas, únicas e tão falsas quanto às palavras pronunciadas quando elas nos vêem chegar. “Amo-te”. Nesse prédio milionário, existem vários apartamentos e quase nenhum fica vazio.

O prédio é de um dos assíduos freqüentadores. Mais um dos perdidos dessa cidade. Nós pagamos muito para ter total privacidade, mas é claro que tudo aqui é pura pompa. Salas grandes, quartos requintados de luxo, móveis espetaculares, quase tudo com acabamento em ouro. E o que buscamos é o que temos: sexo, apenas sexo. Pago e por apenas alguns horas.

Diferente de você Tiago, cada orgasmo que as faço ter, cada grito, cada gota de suor que faço saltar dos corpos delas, é pago. Mas você. Você não. Qualquer coisa que faça ou doe a ela é tudo. Até mesmo sua cara de bravo, quando ela faz qualquer coisa que o incomode. E é claro quase tudo o incomoda. Porém quando você faz uma simples coisa que ela sonhou a vida toda, como trazer um café da manhã para ela na cama, ela te ama cada vez mais.

Apesar de agora, ainda de madrugada, vocês dois estarem juntando as contas, quebrando a cabeça para saber como vão pagá-las, vocês sabem que minutos depois tudo vai acabar em mais algumas cenas de puros sentimentos verdadeiros e todas as preocupações serão lavadas com a água quente que cai do chuveiro em seus corpos.

E eu?...

Eu estou nessa cama que considero até absurdo seu tamanho. Ela está deitada do meu lado totalmente em pêlos. Linda, perfeita. Mas nossa! Quantos homens já a tiveram? Posso imaginar. Depois de tudo não sinto nada por elas. Daqui a pouco vou sair e como na semana passada, algumas camareiras vão entrar nos apartamentos e deixar tudo limpo, brilhante e perfumado, para quando nos próximos fins de semana, eu e os outros voltarmos e viver esse delírio vazio.

***

- Bom dia meu amor.

- Oi minha esposa mais linda do mundo!

- Papai...!!!

- Opa! E os meus dois filhos mais lindos do mundo! É claro.

Sorrisos. Abraços apertados e quentes. Perfeição.

***

Sisudo. Solitário. Pensamentos perdidos. Muito dinheiro.

***

- Deus!

Janiel, 23 anos, filho único, acorda suado, assustado, na sua cama de 2m x 1,5m. Ele está em meio a um caos. Um quarto que poderia ser descrito em diversas maneiras, mas nunca como organizado. Roupas pelo chão, uma guitarra escorada na porta aberta do guarda-roupa de onde estão meio caídas uma calça e um casaco. Três tênis de diferentes modelos enroscados pelo chão, enquanto seus respectivos pares encontram-se em lugares diferentes espalhados debaixo da cama, perto da porta e até em cima de uma caixa de som, ao lado de um computador esquecido ligado a noite toda.

Ele senta-se na beira da cama, levando as mãos à cabeça um sorriso lhe salta a boca ainda machucada de uma briga na noite anterior.

- Nossa que sonho louco... Caralho! Eu em dois caras. Um feliz marido, um homem simples, com uma esposa linda e dois filhos mais ainda. E eu. O mesmo homem em outra vida. Rico, com várias mulheres, carros importados, empresas, porém triste e só.

Ainda com um sorrio ofuscando os dentes quase amarelos, vestido com uma camisa da seleção brasileira, completa:

- É claro que é só um sonho. Tenho que me levantar e trabalhar... Sonho doido.

Ali perto de Janiel, em cima de um pequeno e velho criado mudo, um bilhete de loteria comprado na tarde anterior, que valia um prêmio de 46 milhões a serem sorteados naquela noite. Do lado, em um guardanapo, o nome Samanta estava rabiscado junto a oito números, que ele havia ganhado de uma garota na noite anterior, um pouco antes de receber o soco que o cortara a boca, um soco do acompanhante da garota em que ele deu em cima.

Por cima dos dois papéis, uma carta de tarô, que ele achara na porta de casa quando chegou. Nela havia uma figura que ele nunca tinha visto, onde havia escrito abaixo: DESTINO.

7 comentários:

Aninha disse...

Sabe existem realmente muitas pessoas desses dois tipos...pessoas perdidas em mundos bem particulares..uns felizes e outros tristes e ricos. Adorei.

Paulo Araujo disse...

Que vida filha da p... desse carinha rico... cara serio nunca que eu ia querer ter dinheiro tanto assim e viver tão só...sai pra lá boi mangágá...rsrsrsrsr

Diego (dbg_77@yahoo.com.br) disse...

Excelente! Conto q revela alguns cotidianos desse mundo enorme em q sobrevivemos.

Anônimo disse...

Muito bom o blog. Continuem.
Existencialista.

nany disse...

Nossa, cada dia que passo por aqui me surpreendo mais com as lindas mensagens de reflexão !
Parabéns pra vocês...este blog está cada dia melhor!

carolina disse...

carolina amei muito legal...um novo começo amei .. doce dezembro kkk

Karin disse...

Achei o texto legal, porem muito cumprido... As pessoas que entram na internet querem ver ou ler as coisas sempre bem rapido. Elas não querem perder muito tempo em um site.

Quanto ao texto eu gostei da narrativa, mais como aqui no japão existem outros padrões de escrita e elaboraçoes de ideias, eu achei achando uma grande diferença. Aconcelharia a ser um pouco mais direto pra nao deixar a leitura cansativa.

Parabens pelos argumentos
by Karin Abe

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Blog criado para divulgar contos e crônicas, pautados nos mais diversos temas, escritos de uma forma mais direta e dinâmica. Sérgio e Crisla buscam assim acabar com o medo daqueles que não se aventuram em ler uma boa história por não quererem enfrentar páginas e mais páginas dos bons livros. Dar emoção em poucas linhas, prender a atenção com uma boa narrativa, são metas que os autores querem alcançar com o blog, onde amor, política, vampiros, agentes secretos e seres mágicos estarão sempre por aqui. Bem vindos ao nosso blog, aproveitem cada texto que criamos e muito obrigado por estarem aqui.