quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Um novo começo


Bianca está parada já a meia hora, sentada no chão frio e molhado no banheiro a olhar aquela tirinha de papel em suas mãos. Um pedacinho ínfimo e quase insignificante, mas que traz em duas pequeninas linhas azuis, uma resposta definitiva que irá transformar sua vida radicalmente dali para frente. Desde que os cinco minutos necessários se passaram e ela, que não havia tirado os olhos do exame, percebeu o que as duas linhas significavam, não conseguiu se levantar ou esboçar qualquer reação.

Ela tinha de ficar pelo menos chocada. E isso ela estava, mas não conseguia ficar triste, ou com raiva, ou sequer desesperada como seria de se esperar.

Ela tinha 25 anos era solteira, formada em engenharia e funcionária de uma firma de sucesso conhecida nacionalmente. Morava sozinha num apartamento pequeno, mas confortável e não saia muito desde que rompera um relacionamento de 3 anos há cerca de seis meses.

Saía só para algumas festas muito de vez em quanto com as amigas, que em algumas vezes praticamente empurravam-a escada abaixo. A festa que havia ido a dois meses atrás porém ela não teve como inventar desculpas. Era seu aniversário e elas não iriam admitir que ela passasse a noite em casa. Nem adiantou propor um cineminha e um jantar íntimo. As amigas a arrastaram para uma rave e ela acabou se divertindo muito.

Bebeu bastante, mas não o suficiente para ficar bêbada, só um pouco mais animada. Portanto ela não podia agora culpar a bebida por ter feito o que fez. Acabar a noite nos braços de um homem, lindo, charmoso e muito sedutor. Ela sabia exatamente o que estava fazendo quando aceitou o seu convite para esticarem a noite em um motel. Ela não pôde resistir quando ele falava aquelas coisas tão doces e lindas para ela. Nesse ponto talvez a bebida tenha afetado seu discernimento, ela geralmente custava a acreditar no que um homem falava, ou talvez tenha sido apenas a carência de afeto e atenção. Mas seja lá o que for, também a fez esquecer de usar camisinha.

Ela sabia o que podia acontecer se não usasse. Todo mundo sabe hoje em dia. E então pela primeira vez lhe veio o pensamento, de que, se por acaso ela realmente não quisesse mesmo no fundo de seu ser, que acontecesse o que aconteceu.

Então Bianca sentiu doer dentro de si e apertou as mãos em torno de seu corpo, num abraço que ela bem gostaria de não precisar dar a si mesma.

Ela queria um filho. Ela sempre quis. Esse havia sido o motivo que a levou a terminar com o namorado. Ele nunca estava pronto. Conversavam bastante sobre isso, sempre. Ela falava de nomes escolhidos, escolas que gostaria que seus filhos estudassem ou outras coisas do tipo. Devia ter percebido quando notava o desinteresse dele. Mas mentia para si mesma dizendo apenas que ainda não era o momento certo dele.

Passaram-se meses, depois anos e ele já começava a falar em casamento com ela. Algumas frases do tipo, “quando estivermos em nossa casa”, ou “depois que morarmos juntos” começaram a ser ditas por ele. Porém filhos nunca eram mencionados, até que um dia quando, como em várias vezes Bianca incluía crianças nos planos, ele falou a frase definitiva: “Eu não quero ter filhos.”

Cinco palavras que pareciam impossíveis para Bianca absorvê-las. Como assim não queria? Todo mundo quer. Retrucou ela.

Aquela noite depois de brigas e choros ela o mandou embora. Ele apenas assentiu tristemente, afirmando ainda que a amava muito, que sempre a tinha amado. Bianca chorou por três semanas, indo apenas para o trabalho onde executava suas tarefas quase como um robô. Chorou pelo homem que ela também amava e chorou pela criança que nunca teria. Ela queria um filho sim, mas um filho dele. Queria que fossem uma família completa e feliz, mas não imaginava essa família sem crianças.

E agora olhando para o resultado do exame comprado pouco antes quando ela finalmente tinha tomado coragem de assumir o que o atraso de sua menstruação significava, ela percebia que iria ser mãe. Aliás tecnicamente poderia já se considerar como uma mãe. E passando a mão carinhosamente em sua barriga ela teve consciência de que tinha uma vida lá dentro. O seu filho

Se perguntava se devia contar a alguém. Ou melhor, se devia contar ao André, o pai da criança, afinal teria de contar as pessoas porque mais cedo ou mais tarde todos iriam saber.

Ela sabia como encontrá-lo, só não sabia se realmente era necessário. Ela não o queria. Não o amava, nem sequer passava pela cabeça dela a ideia de fazê-lo assumir a criança ou coisa assim. Não precisava, ela seria capaz de criá-la sozinha. Só ela e seu filho.

Interrompendo seus pensamentos, o telefone toca na sala. Bianca desperta de seus devaneios e vai atendê-lo. Toma um susto ao reconhecer a voz do outro lado: era André. Ele pedia para encontrarem-se novamente. Não num encontro, um almoço apenas, ele tinha de falar-lhe algo muito importante, dissera.

Bianca ficou confusa com aquele telefonema. Ele não tinha como saber de nada. Ela só ficou sabendo agora. E como ela reagiria vendo-o frente a frente. Era fácil manter a decisão de não contar nada a ele sem nunca mais vê-lo, mas agora? Foi trocar de roupa pensando no que fazer. Haviam marcado de encontrarem-se em uma hora e as dúvidas só aumentavam a cada instante.

Ao chegar no restaurante ela o viu perto de um apoio de madeira na parte de fora, perto de algumas mesas que haviam ao ar livre. Olhava para o tempo com um olhar distante e vazio. Ela sentiu um calafrio percorrer-lhe o pescoço. Tomando coragem aproximou-se e o cumprimentou.

Conversaram um pouco sobre assuntos banais e ela percebeu que ele parecia buscar coragem para falar algo. Então ela sentiu que devia lhe dizer. Não era correto esconder dele uma coisa dessas. Não pediria nada a ele e deixaria claro sua decisão de criar o filho sozinho, mas tinha de contar. Talvez ele ficasse até menos angustiado quando soubesse e percebesse que seja lá o que quisesse contar não poderia ser assim tão importante.

Cuidadosamente ela lhe deu a notícia. Falou de sua decisão, que ficara sabendo a poucas horas e que não cobraria nada dele. O olhar de André, primeiramente de surpresa se transformou em pânico e depois em tristeza ao perceber com quanto amor e certeza Bianca falava. Antes que ela terminasse ele lhe interrompeu abruptamente:

- Você não pode ter esse filho.

Bianca calou-se e ficou olhando-o atônita. Baixou o olhar para suas mãos, respirou fundo e respondeu:

- Essa não é uma decisão sua André. O filho é meu e eu decidi criá-lo.

André olha para ela penalizado, pega suas mãos e fala carinhosamente olhando em seus olhos:

- Me desculpe Bianca, mas você não pode mesmo ter esse filho. Se fosse em qualquer outra situação eu não iria me opor, se você decidisse isso que ficasse com ele. Mas agora é diferente.

Bianca soltou suas mãos decidida a se levantar da mesa e ir embora de uma vez por todas. Estava ficando muito assutada com o rumo daquela conversa e já se arrependia totalmente de ter dito a ele com medo de que ele fizesse qualquer coisa que a impedisse de seguir adiante.

- Diferente como André? Não interessa o que você pensa, eu vou ter esse bebê. E não há nada que você possa fazer que vai impedir isso. Adeus e por favor não me procure nunca mais.

Levantando-se, Bianca sai com lágrimas nos olhos. Não importava o que ele pensava, ele não importava. O filho era dela, só dela.

Antes de chegar a rua ela é alcançada por André que a vira e fala bruscamente:

- Você não pode ter essa criança Bianca. Eu tenho AIDS. Descobri essa semana, mas já tinha a tempo suficiente de ter passado para você.

* * *

Um ano depois da conversa no restaurante Bianca olha para sua linda princesinha dormindo tranquilamente no berço, acomodada confortavelmente no quarto preparado e decorado com princesas e fadinhas em todos os tons do arco-íris. Ela tinha 5 meses e seus olhinhos brilhavam toda vez que viam a mãe.

Vários especialistas sempre afirmaram que a amamentação era essencial para a formação de um vínculo forte entre mãe e filho. Porém mesmo impossibilitada de amamentar seu bebê, Bianca sentia que a ligação entre elas não poderia ser mais forte. Somente ao ouvir a voz da mãe, a pequena Camila sorria abertamente e agitava-se toda.

Bianca sentia um aperto no peito sabendo que sua licença maternidade estava acabando e teria de deixá-la aos cuidados de sua mãe na maior parte do dia. Camila era seu pequeno tesouro, seu pedaço do paraíso.

Bianca tinha AIDS também. Ela realmente havia sido infectada na mesma noite em que Camila foi concebida. Seus sentimentos eram cada vez mais confusos sempre que pensava em tudo o que tinha acontecido. Ela queria odiar André pelo que ele tinha feito, mas ela sabia que a culpa também era dela. E por outro lado queria agradecê-lo por ter tornado possível a vida de Camila.

Depois do diagnóstico, as coisas tinham se complicado bastante. Bianca ficou sem rumo. Achou que sua vida tinha acabado justo no momento em que ela iria realizar seu maior sonho. Começou a pensar então no aborto, pois não queria destinar a criança a um sofrimento de uma doença tão cruel e incurável.

Suas amigas a acharam no apartamento magra, sozinha e apática, semanas depois, sem querer saber do mundo e apenas pedindo um pouco mais de coragem para acabar com a própria vida uma vez que não tinha tido coragem suficiente de abortar. Ouviram entre lágrimas Bianca falar de tudo o que aconteceu, mas Márcia, que era médica, a mostrou que nem tudo estava perdido. Ela a abraçou forte e esclareceu tudo o que sabia sobre a doença.

A ignorância sobre a AIDS, embora todos saibam como preveni-la torna difícil a vida daqueles que são portadores do vírus. Porém o fato de ter sido contaminada não significa que você ficará doente imediatamente. Pessoas soropositivas podem viver muitos anos e nunca apresentarem sintomas, apesar de passarem a doenças a outras pessoas mesmo assim. Essa é uma doença que hoje não tem cura, mas as pesquisas avançam a cada dia e o tratamento da doença existe, é gratuito e deve ser feito.

Essas palavras deram um pouco mais de esperança a Bianca, mas o que realmente lhe deu forças para se reerguer foi saber que nem sempre a mãe passa a doença para o filho e que existe meios para que a criança não fique infectada. Ela teria de ser sempre acompanhada, o parto não poderia ser normal nem ela poderia nunca amamentar o bebê. Mas haviam chances. Tanto que o aborto nem era permitido legalmente nesses casos.

Então Bianca, mesmo sabendo que teria sua saúde para sempre debilitada, que corria o risco de não ver seu bebê crescer até a idade adulta, que não teria uma vida normal, ela decidiu que valia a pena e continuar a viver.

Hoje como tantas pessoas no Brasil e no mundo Bianca segue com sua vida da maneira mais normal possível para uma mãe solteira, mas recebe ajuda inestimável de sua mãe e amigas. Trabalha ainda na mesma empresa, depois de uma franca e esclarecedora conversa com seu chefe acompanhada de Márcia. Toma os remédios necessários todos os dias, mas não considera isso um fardo e sim a lembrança diária que a mantém viva e saudável.

As coisas nem sempre são fáceis, ainda mais num mundo ainda preconceituoso por pessoas que, assim como ela um dia fora, desconhecem a doença e suas características e não sabem que ela não é contagiosa num contato de mão, num abraço, ou sentando-se na mesma cadeira. Quando alguma dúvida surge, num momento mais difícil, ela olha para Camila e se pergunta se realmente vale a pena. E então a vê sorrir, ou mexer seus pequeninos bracinhos e ela sente que vale a pena sim.

Toda manhã quando acorda com o chorinho exigente e faminto de Camila, ela agradece a Deus por lhe conceder mais um dia. E sabe que tudo o que aconteceu serviu para fazê-la valorizar o que realmente importa, numa vida que podemos perder a qualquer instante. Mesmo alguém que não tenha AIDS.

E sabe que assim como a filha que começa no mundo, ela também está iniciando uma nova vida, que talvez possa não ser longa, mas que ela decidiu que seria feliz e completa em cada valioso dia que ainda lhe restar.

3 comentários:

isabel bessa disse...

Muito emocionante e criativo esse texto,serve como uma liçao de vida e graças a Deus que teve um final feliz,apezar de tudo.Parabens aos escritores, muito bom mesmo.

Yara Suyanny (yarasuyanny@hotmail.com) disse...

Essa é uma mensagem de reflexão mto bela, que nos mostra que quando pensamos que tudo está perdido agente acha um jeitinho de ser feliz mesmo assim! Muito boa a mensagem de vocês!

Lia Britto disse...

Por vale mesmo apena viver a vida... Mas quem pena nem todos pensam assim. E deixam cair pelos dedos a vida... Mas Bianca foi mesmo uma guerreira. Muito bom seus textos!
Lya Brito

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